Ser bom tecnicamente não é o suficiente

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Você provavelmente conhece alguém que entende menos do que você, entrega trabalhos questionáveis e, ainda assim, ocupa um cargo melhor, participa das decisões mais importantes e recebe mais reconhecimento.

E isso costuma gerar uma sensação de injustiça.

Afinal, enquanto você estuda arquitetura, algoritmos, escalabilidade e qualidade de código, essa pessoa parece avançar mesmo sem demonstrar o mesmo domínio técnico.

Então surge um pensamento quase automático:

“Ele não é tão bom assim. Só sabe falar bonito.”

Pensamos assim porque, muitas vezes, é justamente essa a habilidade que mais conseguimos enxergar na pessoa.

Ela sabe apresentar o que fez. Sabe defender uma ideia. Sabe tornar uma entrega visível. Sabe construir confiança em uma reunião e fazer com que as pessoas percebam valor do seu trabalho.

Enquanto isso, talvez você esteja esperando que sua competência seja reconhecida naturalmente.

Em alguns casos, essa pessoa realmente pode ter construído a carreira muito mais em cima da percepção do que da competência. Mas, em outros, talvez ela apenas tenha treinado uma habilidade que muitos profissionais técnicos negligenciam: a capacidade de vender o próprio trabalho.

Não estou falando sobre fingir conhecimento, apropriar-se das entregas dos outros ou transformar qualquer tarefa em uma grande campanha de autopromoção. Estou falando sobre conseguir explicar o que você faz, demonstrar por que isso importa e construir confiança ao redor da sua atuação.

Em outras palavras: market yourself.

E, por mais injusto que possa parecer, ser bom tecnicamente não é suficiente quando ninguém consegue perceber o quanto você é bom.

Seu trabalho não fala por si

Há uma história sobre um experimento com chaveiros que ilustra muito bem como percebemos o valor de um trabalho.

As pessoas precisavam chamar um profissional para abrir uma porta trancada e, ao final do serviço, podiam pagar quanto considerassem justo.

A conclusão mais intuitiva seria imaginar que os chaveiros mais rápidos receberiam os maiores pagamentos. Afinal, resolver o problema em poucos segundos deveria demonstrar experiência, domínio e eficiência.

Mas acontecia justamente o contrário.

Quando o chaveiro chegava, observava a fechadura e abria a porta quase imediatamente, muitos clientes sentiam que o trabalho havia sido simples demais. Como o esforço não era visível, tinham a impressão de que o serviço não valia tanto.

Já os profissionais que examinavam a fechadura, testavam uma chave, explicavam o que estavam tentando, trocavam de ferramenta e só então abriam a porta costumavam receber mais.

Eles não necessariamente eram mais competentes.

Em alguns casos, apenas tornavam o processo mais visível.

O cliente conseguia acompanhar as tentativas, perceber a dificuldade e compreender melhor o valor do trabalho realizado.

É claro que a lição não é fingir dificuldade, atrasar uma entrega propositalmente ou criar um espetáculo ao redor de algo simples.

A verdadeira lição é que as pessoas têm dificuldade de valorizar aquilo que não conseguem enxergar.

Um chaveiro experiente pode abrir uma porta rapidamente justamente porque passou anos aprendendo a identificar fechaduras, reconhecer padrões e escolher a ferramenta correta. Mas, para o cliente, tudo o que aconteceu foi alguém mexer na porta por alguns segundos.

O mesmo acontece no desenvolvimento de software.

Às vezes, você resolve um incidente em poucos minutos porque já enfrentou problemas semelhantes diversas vezes.

Evita uma falha em produção alterando poucas linhas de código.

Para quem vê apenas o resultado final, aquilo pode parecer fácil.

A pessoa não viu os anos de experiência por trás da decisão. Não sabe quantas possibilidades você analisou. Não conhece os riscos que foram eliminados antes mesmo de se tornarem visíveis.

E, quando você não comunica esse processo, o seu trabalho pode acabar parecendo menor do que realmente foi.

A eficiência não deveria diminuir o valor percebido do seu trabalho. Mas isso pode acontecer quando ninguém entende o conhecimento necessário para tornar aquela solução simples.

Por isso, não basta resolver o problema. Você também precisa aprender a mostrar, com honestidade, que aquilo que pareceu fácil só foi fácil porque você sabia exatamente o que estava fazendo.

Todo mundo é um vendedor

Em algum momento da carreira, escutamos frases para as quais ainda não estamos preparados.

Elas parecem simples, genéricas ou até exageradas. Guardamos aquilo em algum canto da memória e seguimos em frente. Só anos depois, diante de uma situação completamente diferente, finalmente entendemos o que aquela pessoa queria dizer.

Um dos meus mentores certa vez me disse:

“Todo mundo é um vendedor.”

Sinceramente, eu não entendi.

Eu escrevia código.

Não trabalhava na área comercial, não negociava contratos e não tinha metas de vendas. Minha responsabilidade era desenvolver soluções, corrigir problemas e entregar software.

O que aquilo poderia ter a ver comigo?

Demorei algum tempo para perceber que eu estava vendendo todos os dias.

Quando proponho uma forma de implementar uma funcionalidade, estou vendendo uma abordagem.

Quando defendo uma arquitetura, estou vendendo uma decisão.

Quando discordo de alguém em uma reunião, estou vendendo uma maneira diferente de enxergar o problema.

E, quando busco uma promoção, estou vendendo a ideia de que estou preparado para assumir responsabilidades maiores.

Mesmo sem perceber, estamos constantemente tentando fazer com que alguém compre uma ideia, uma decisão, uma solução ou a confiança no nosso trabalho.

E seremos julgados não apenas pelo que entregamos, mas também pela experiência que criamos durante esse processo.

Um profissional pode entregar exatamente aquilo que o cliente pediu e ainda assim fazê-lo odiar a experiência. Pode resolver o problema, mas comunicar-se mal. Pode estar tecnicamente certo e, mesmo assim, fazer com que todos evitem trabalhar com ele novamente.

Da mesma forma, um profissional pode enfrentar dificuldades, comunicar riscos com transparência, envolver o cliente nas decisões e construir uma relação de confiança durante a entrega.

O resultado técnico importa, mas ele não é a única coisa que fica na memória.

Cada interação também constrói uma percepção sobre a sua marca profissional.

O cliente não avalia apenas o software. Ele avalia você.

Seu time não avalia apenas sua solução. Avalia como você reage quando é questionado, como explica suas decisões, como lida com erros e como faz as outras pessoas se sentirem durante o trabalho.

Você pode satisfazer uma necessidade e, ao mesmo tempo, fazer com que alguém nunca mais queira trabalhar com você.

Ou pode transformar uma entrega comum em uma experiência que gera confiança e abre portas para novas oportunidades.

Foi assim que finalmente entendi a frase do meu mentor.

Todo mundo é um vendedor porque todos nós, o tempo inteiro, estamos vendendo alguma coisa.

A única diferença é que algumas pessoas fazem isso de forma consciente.

Você não vende apenas o seu trabalho. Vende também a experiência de trabalhar com você.

O risco de ser o gênio que ninguém quer por perto

Eu já trabalhei com uma pessoa tecnicamente incrível.

Talvez tenha sido uma das pessoas mais inteligentes que conheci ao longo da minha carreira.

Ela dominava assuntos complexos, enxergava problemas que quase ninguém percebia e frequentemente encontrava soluções que estavam muito acima da média. Em muitas discussões, era evidente que seu repertório técnico era maior do que o de praticamente todos ao redor.

Ainda assim, foi uma das piores experiências profissionais que eu e meu time tivemos.

Não digo isso por arrogância, ressentimento ou por qualquer dificuldade em reconhecer a competência daquela pessoa. Pelo contrário: sua capacidade técnica era inegável.

O problema estava na experiência que ela criava dentro da empresa e do time.

Discussões técnicas se transformavam em competições. Perguntas simples eram recebidas como demonstrações de incompetência. Code reviews pareciam julgamentos. Discordâncias eram tratadas como ataques pessoais. Termos complexos eram usados não para esclarecer, mas para criar distância.

Aos poucos, as pessoas pararam de perguntar.

Depois, pararam de sugerir.

Por fim, passaram a evitar qualquer interação que envolvesse aquela pessoa.

Ela podia ser a mais inteligente da sala, mas sua presença reduzia a inteligência coletiva do time.

Esse é um ponto que muitos profissionais esquecem: ser tecnicamente excelente e ser uma pessoa agradável de trabalhar não são características incompatíveis.

Uma pessoa verdadeiramente madura não usa o conhecimento para mostrar o quanto os outros sabem pouco. Usa o conhecimento para aumentar a capacidade de todos ao redor.

Cria segurança para que pessoas menos experientes participem das discussões sem medo de serem humilhadas. Se apenas você consegue compreender ou manter a solução que criou, isso talvez não demonstre que você é indispensável. Talvez demonstre apenas que você criou uma dependência.

E dependência não é liderança.

Em contrapartida, também já trabalhei com pessoas que sabiam muito menos tecnicamente, mas tornavam a experiência de trabalhar com elas extremamente gratificante.

Eram pessoas disponíveis, curiosas, responsáveis e abertas a aprender. Quando não sabiam alguma coisa, perguntavam. Quando erravam, assumiam. Quando alguém precisava de ajuda, faziam o possível para contribuir.

Talvez não fossem capazes de resolver sozinhas os problemas mais complexos do time, mas criavam um ambiente em que esses problemas podiam ser resolvidos em conjunto.

E isso também tem valor. Muito valor.

Porque, no ambiente profissional, nunca somos avaliados apenas por uma grande entrega ou por uma decisão técnica isolada.

Estamos sendo avaliados o tempo inteiro.

Aquele atraso recorrente de cinco minutos em uma reunião conta.

A maneira como você reage quando alguém encontra um erro no seu código conta.

A maneira como reconhece o trabalho dos outros conta.

Isoladamente, cada uma dessas situações pode parecer pequena. Mas, ao longo do tempo, elas formam uma percepção. As pessoas começam a responder, mesmo que silenciosamente, a algumas perguntas:

Posso confiar nessa pessoa?

Ela melhora ou piora o ambiente?

É seguro discordar dela?

Essas respostas constroem sua marca profissional muito antes de você decidir falar sobre marketing pessoal. Você pode entregar exatamente aquilo que o cliente pediu e, ainda assim, fazê-lo odiar a experiência de trabalhar com você.

Por outro lado, pode ainda não ser a pessoa mais preparada tecnicamente e construir relações tão positivas que as pessoas desejem investir no seu desenvolvimento, ensinar, recomendar e abrir novas oportunidades.

Isso não significa que simpatia substitui competência ou boa experiência sustenta indefinidamente um profissional que nunca entrega ou nunca evolui.

Mas competência também não compensa todos os comportamentos.

No fim, o que fica é que não vendemos apenas a qualidade do nosso trabalho.

Talvez você seja a pessoa mais inteligente da sala. A pergunta é: a sala fica melhor quando você entra?

Ser bom tecnicamente não é o suficiente

A conclusão que eu queria trazer com este artigo não é que habilidades técnicas deixaram de importar.

Muito pelo contrário.

Sem conhecimento, experiência e capacidade de execução, marketing pessoal se torna apenas discurso. Você pode até sustentar uma boa primeira impressão por algum tempo, mas nenhuma comunicação compensa indefinidamente a falta de entrega.

Ser bom continua sendo essencial.

Mas não é o suficiente.

Ao longo da carreira, não somos avaliados apenas pelo código que escrevemos. Também somos avaliados pela maneira como apresentamos uma ideia, explicamos uma decisão, lidamos com uma discordância, ajudamos um colega e construímos confiança ao redor do nosso trabalho.

Competência sem comunicação pode se transformar em trabalho invisível.

Comunicação sem competência pode se transformar em uma promessa vazia.

O verdadeiro crescimento acontece quando conseguimos unir as duas coisas. A técnica permite criar valor. A comunicação permite que esse valor seja compreendido. A confiança faz com que novas responsabilidades sejam colocadas em nossas mãos. E a experiência que proporcionamos faz com que as pessoas queiram trabalhar conosco novamente.

Por isso, você não precisa escolher entre ser bom e parecer bom.

Precisa ser bom e aprender a demonstrar isso.

Não por meio de exageros, autopromoção vazia ou fingindo saber mais do que realmente sabe. Mas tornando visíveis suas decisões, seus aprendizados, seu impacto e a forma como você contribui para o crescimento das pessoas ao redor.

Talvez o seu trabalho realmente seja excelente.

Mas ele não fala sozinho. Aprenda a falar por ele.